Mural de Poesias

Acontece na Biblioteca Pública Municipal a mostra: “Varal Poético” – poesia de ontem, de hoje e de sempre. Essa mostra contém poesias de grandes autores de nossa Literatura. A dinâmica é levar a poesia para a praça e deixar espaço para aqueles que desejam mostrar seus escritos.
Então se delicie!
Venha até a Biblioteca! Participe em nosso Blog! O espaço é todo seu!

 

Ouvir Estrelas

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!”. E eu vos direi, no entanto,

Que para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto

Cintila. E, ao ver do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai-as para entendê-las

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Autor: Olavo Bilac.- Livro: Ouvindo estrelas: antologia

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar – sozinho, à noite –

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute dos primores

Que não encontro por cá

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o sabiá.

(Esta poesia é um hino de amor ao Brasil e às suas belezas naturais).

- Autor: Gonçalves Dias. – Livro: Ouvindo estrelas: antologia

DEBAIXO DO TAMARINDO

No tempo de meu pai, sob estes galhos,

Como uma vela fúnebre de cera,

Chorei bilhões de vezes com a canseira

De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore de amplos agasalhos

Guarda, como uma caixa derradeira,

O passado da flora brasileira

E a paleontologia dos carvalhos!

Quando pararem todos os relógios

De minha vida, e a voz dos necrológios

Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,

Abraçada com a própria Eternidade,

A minha sombra há de ficar aqui!

- Autor: Augusto dos Anjos. – Livro: Ouvindo estrelas: antologia.

A CONSEQUÊNCIA

O pássaro volta para as folhas da árvore comum e se

Enfeita com elas. A árvore se enfeita com o pássaro

E as folhas.

O mundo se enfeita com a árvore e assim por diante.

O pássaro espera assustado.

O mundo está todo em expectativa.

É uma luta de coração a coração.

De repente surge na beira do rio a cabecinha de um peixe

Cheia de colares redondos e brilhantes feitos de água e sol.

A RESPOSTA

No exato momento escuto um canto

Tão breve como deve ser o milagre.

O peixe se cobre com as águas e desaparece. O colar fica sobre o rio,

Levando amor rio-abaixo, rio-acima.

Autor: Bartolomeu Campos de Queiroz. – Livro: O peixe e o pássaro.

De onde veio a

Inspiração

Pra Santos Dumont inventar

O avião?

Estava batendo asas

Na palavra

Gavião.

- Autor: Luiz Roberto Guedes. Livro: Bicharada de tinta.

A ONDA

a onda anda

aonde anda

a onda?

a onda ainda

ainda onda

ainda anda

aonde?

aonde?

a onda a onda

- Autor: Manoel Bandeira. – Livro: Estrela da tarde.

VELHAS ÁRVORES

Olha estas velhas árvores, mais belas

Do que as árvores novas, mais amigas:

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas

Vivem, livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!

Envelheçamos rindo! envelheçamos

Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,

Agasalhando os pássaros nos ramos,

Dando sombra e consolo aos que padecem!

- Autor: Olavo Bilac. Livro: Ouvindo estrelas: antologia.

Pescaria

Cesto de peixes no chão.

Cheio de peixes, o mar.

Cheiro de peixe pelo ar.

E peixes no chão.

Chora a espuma pela areia,

na maré cheia.

As mãos do mar vê e vão,

as mão do mar pela areia

onde os peixes estão.

As mãos do mar vêm e vão,

em vão.

Não chegarão

aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia

a espuma da maré cheia.

- Autor: Cecília Meireles. – Livro: Ou isto ou aquilo.

Trucidaram o rio

Prendei o rio

Maltratai o rio

Trucidai o rio

A água não morre

A água que é feita

de gotas inermes

Que um dia serão

Maiores que o rio

Grandes como o oceano

Fortes como os gelos

Os gelos polares

Que tudo arrebentam.

- Autor: Roseana Murray. – Livro: Classificados poéticos

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.

Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

- Autor: Carlos Drummond de Andrade. – Livro: Seleta em prosa e verso

Canção da tarde no campo

Caminho no campo verde,

estrada depois de estrada.

Cercas de flores, palmeiras,

serra azul, água calada.

Eu ando sozinha

no meio do vale.

Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra

que é a imagem da minha vida:

tão vazia, mas tão bela,

tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha

por cima de pedras.

Mas a flor é minha.

Os meus passos no caminho

são como os passos da lua:

vou chegando, vais fugindo

minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha

por dentro de bosques.

Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,

não vejo o que passa perto.

Subo monte, desço monte,

meu peito é puro deserto.

Eu ando sozinha,

ao longo da noite.

Mas a estrela é minha.

- Autor: Cecília Meireles. – Livro: Os melhores poemas.

O RIO

Uma gota de chuva

A mais, e o ventre grávido

Estremeceu, da terra.

Através de antigos

Sedimentos, rochas

Ignoradas, ouro

Carvão, ferro e mármore

Um frio cristalino

Distante milênios

Partiu fragilmente

Sequioso de espaço

Em busca de luz

Um rio nasceu.

Autor: Vinícius de Moraes. – Livro: Antologia poética

O AUTORRETRATO

No retrato que me faço

- traço a traço -

Ás vezes me pinto nuvem

Ás vezes me pinto árvore…

- Autor: Mário Quintana. – Livro: Poesias

Baile no Sereno

Cantador canta tristeza,

canta alegria também.

É de sua natureza

cantar o mal e o bem.

Pois ele tem dentro dele

o canto que o canto tem…

Por isso, se o mar secar,

se cobra comprar sapato,

se cachorro virar gato,

se o mudo puder falar,

Se a chuva chover pra cima,

se barata for grã-fina,

Quando o embaixador for em cima,

Cantador vai se calar.

- Autor: Ruth Rocha. – Livro: Baile no sereno

VIVER

Quem nunca quis morrer

Não sabe o que é viver

Não sabe que viver é abrir uma janela

E pássaros sairão por ela

E hipocampos fosforescentes

Medusas translúcidas

Radiadas

Estrelas-do-mar… Ah,

Viver é sair de repente

Do fundo do mar

E voar…

e voar…

cada vez para mais alto

Como depois de se morrer!

- Autor: Mário Quintana. – Livro: Baú de espanto

Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti…

- Autor: Mário Quintana. – Livro: Poesias

Canção do Dia de Sempre

Tão bom viver dia a dia…

A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas…

- Autor: Mário Quintana. – Livro: Poesias

Tempo

A mim que desde a infância venho vindo

como se o meu destino

fosse o exato destino de uma estrela

apelam incríveis coisas:

pintar as unhas, descobrir a nuca,

piscar os olhos, beber.

Tomo o nome de Deus num vão.

Descobri que a seu tempo

vão me chorar e esquecer.

Vinte anos mais vinte é o que tenho,

mulher ocidental que se fosse homem

amaria chamar-se Eliud Jonathan.

Neste exato momento do dia vinte de julho

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.

- Autor: Adélia Prado. – Livro: Poesia reunida

NEUROLINGUÍSTICA

Quando ele me disse

ô linda,

pareces uma rainha,

fui ao cúmice do ápice

mas segurei meu desmaio.

Aos sessenta anos de idade,

vinte de casta viuvez,

quero estar bem acordada,

caso ele fale outra vez.

- Autor: Adélia Prado. – Livro: Poesia reunida

AZUL SOBRE AMARELO, MARAVILHA É ROXO

Desejo, como quem sente fome ou sede,

um caminho de areia margeado de boninas,

onde só cabem a bicicleta e seu dono.

Desejo, como uma funda saudade

de homem ficado órfão pequenino,

um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos

para um forte carinho em minha nuca.

Brotam os matinhos depois da chuva,

brotam os desejos do corpo.

Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,

como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.

- Autor: Adélia Prado. – Livro: Poesia reunida

MÓDULO DE VERÃO

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.

Nem um pouco delicadas as cigarras são.

Esguicham atarraxadas nos troncos

o vidro moído de seus peitos, todo ele

(chamado canto) cinzento-seco, garra

de pêlo, arame, um áspero metal.

As cigarras têm cabeça de noiva,

as asas como véu, translúcidas.

As cigarras têm o que fazer,

têm olhos perdoáveis.

- Quem não quis junto deles uma agulha??

- Filhinho meu, vem comer,

ó meu amor, vem dormir.

Que noite tão clara e quente,

ó vida breve e boa!

A cigarra atrela as patas

é no meu coração.

O que ela fica gritando eu não entendo,

sei que é pura esperança.

- Autor: Adélia Prado. – Livro: Poesia reunida

BUCÓLICA NOSTÁLGICA

Ao entardecer no mato, a casa entre

bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,

aparece dourada. Dentro dela, agachados,

na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,

rápidos como se fossem ao Êxodo, comem

feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,

muitas vezes abóbora.

Depois, café na canequinha e pito.

O que um homem precisa pra falar,

entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

- Autor: Adélia Prado. – Livro: Poesia reunida

A D. BÁRBARA ELIODORA,

SUA ESPOSA

(Remetida do cárcere na Ilha das Cobras)

Bárbara bela,

Do Norte estrela,

Que o meu destino

Sabes guiar,

De ti ausente,

Triste somente

As horas passo

A suspirar.

Isto é castigo

que Amor me dá.

Por entre as penhas

De incultas brenhas

Cansa-me a vista

De te buscar;

Porém não vejo

Mais que o desejo,

Sem esperança

De te encontrar.

Isto é castigo

que Amor me dá.

Eu bem queria

A noite e o dia

Sempre contigo

Poder passar;

Mas orgulhosa

Sorte invejosa

Desta fortuna

Me quer privar.

Isto é castigo

que Amor me dá.

Tu, entre os braços,

Ternos abraços

Da filha amada

Podes gozar.

Priva-me a estrela

De ti e dela,

Busca dois modos

De me matar.

Isto é castigo

que Amor me dá.

Autor: Alvarenga Peixoto – Livro: CLÁSSICOS da poesia brasileira: antologia da poesia brasileira anterior ao Modernismo.

ADORMECIDA

Ses longs cheveux épars la couvrent toute entière.

La croix de son collier repose dans sa main,

Comme pour témoigner qu’elle a fait sa prière,

Est qu’elle va la faire en séveillant demain.

A. DE MUSSET.

Uma noite, eu me lembro… Ela dormia

Numa rede encostada molemente…

Quase aberto o roupão… solto o cabelo

E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste

Exalavam as silvas da campina…

E ao longe, num pedaço do horizonte,

Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,

Indiscretos entravam pela sala,

E de leve oscilando ao tom das auras,

Iam na face trêmulos – beija-la.

Era um quadro celeste!… A cada afago

Mesmo em sonhos a moça estremecia…

Quando ela serenava… a flor beijava-a…

Quando ela ia beijar-lhe… a flor fugia…

Dir-se-ia que naquele doce instante

Brincavam duas cândidas crianças…

A brisa, que agitava as folhas verdes,

Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se…

Mas quando a via despertada a meio,

Pra não zangá-la… sacudia alegre

Uma chuva de pétalas no seio…

Eu, fitando esta cena, repetia

Naquela noite lânguida e sentida:

“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!

Virgem! – tu és a flor de minha vida!…”

–Autor: Castro Alves. – Livro: CLÁSSICOS da poesia brasileira: antologia da poesia brasileira anterior ao Modernismo

A REVELAÇÃO

Para Charlô

É preciso três coisas para atravessar:

o barco (que é você),

o sonho (que é a carga),

o caminho (que é o aonde ir)

Se você tiver um caminho

Encontrará todos os seus caminhos.

Praça Benedito Calixto, Sampa

15 de agosto de 1998

Autor: Elisa Lucinda. Livro: Euteamo e suas estréias.

AIS OU MENOS

(oração pela descrença)

Senhor,

peço poderes sobre o sono,

esse sol em que me ponho

a sofrer meus ais ou menos,

sombra, quem sabe, dentro de um sonho.

Quero forças para o salto

do abismo onde me encontro

ao hiato onde me falto.

Por dentro de mim, a pedra,

e, aos pés da pedra,

essa sombra, pedra que se esfalfa.

Pedra, letra, estrela à solta,

sim, quero viver sem fé,

levar a vida que falta

sem nunca saber quem é.

- Autor: Paulo Leminski. Livro: Distraídos venceremos.

ALMA MINHA GENTIL, QUE TE PARTISTE

Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida descontente,

repousa lá no Céu eternamente,

e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueças daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

alguma coisa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te,

quão cedo de meus olhos te levou.

Autor: Luís de Camões – Livro: Camões Ética e Lírica

AMOR É UM FOGO QUE ARDE SEM SE VER

Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente,

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence o vencedor;

é ter, com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Autor: Luís de Camões – Livro: Camões Ética e Lírica

APARÊNCIA

Entre os enleios do mundo

não descuide a aparência

à hora em que o lusco-fusco

desse mundo se adensa.

O musgo verde sobre a ruína.

Algum açúcar sobre o amargo.

A fina teia que elimina

as arestas do agravo.

Basta o verniz a bem do estilo.

Um penhor de brilho nos olhos

logra ofuscar pelo visto

a substância mais sólida.

Ser de fato não interessa

(pelo que parece). A aparência

afeita ao sonegar sonega

e dorme o sono da inocência.

– Autor: Henriqueta Lisboa – Livro: Pousada do ser.

AUTOPSICOGRAFIA

01-04-1931

O Poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

– Autor: Fernando Pessoa – Livro: Poemas escolhidos.

AVISO AOS NÁUFRAGOS

Esta página, por exemplo,

não nasceu para ser lida.

Nasceu para ser pálida,

um mero plágio da Ilíada,

alguma coisa que cala,

folha que volta pro galho,

muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,

quem sabe Andrômeda, Antártida,

Himalaia, sílaba sentida,

nasceu para ser última

a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe

pelas águas do Nilo,

um dia, esta página, papiro,

vai ter que ser traduzida,

para o símbolo, para o sânscrito,

para todos os dialetos da Índia,

vai ter que dizem bom-dia,

ao que só se diz ao pé do ouvido,

vai ter que ser a brusca pedra

onde alguém deixou cair o vidro.

Não é assim que é a vida?

Autor: Paulo Leminski. Livro: Distraídos venceremos

AVISO

Se prepare

talvez você seja

um deflagrador descambado

de muitos poemas de amor.

Se prepare

não se assuste

não me apague

talvez você se depare

com seu medo

bem no meio de sua coragem

Vila Velha, 29 de outubro de 1994.

- Autor: Elisa Lucinda. Livro: Euteamo e suas estréias.

BEM NO FUNDO

no fundo, no fundo,

bem lá no fundo,

a gente gostaria

de ver nossos problemas

resolvidos por decreto

a partir desta data,

aquela mágoa sem remédio

é considerada nula

e sobre ela – silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,

maldito seja quem olhar pra trás,

lá pra trás não há nada,

e nada mais

mas problemas não se resolvem,

problemas têm família grande,

e aos domingos saem todos passear

o problema, sua senhora

e outros pequenos probleminhas

Autor: Paulo Leminski. Livro: Distraídos venceremos.

LIRA XXX

Junto a uma clara fonte

A mãe de Amor se sentou;

Encostou na mão o rosto,

No leve sono pegou.

Cupido, que a viu de longe,

Contente ao lugar correu;

Cuidando que era Marília,

Na face um beijo lhe deu.

Acorda Vênus irada:

Amor a conhece, e então

Da ousadia, que teve,

Assim lhe pede o perdão:

Foi fácil, ó mãe formosa,

Foi fácil o engano meu;

Que o semblante de Marília

É todo o semblante teu.

Autor: Tomás Antônio Gonzaga – Livro: Clássicos da poesia brasileira.

LUA

Ele me pegou a boca

e com os dedos

percorreu cada pedaço

de meu sorriso

E me tirou a toalha

provou meu corpo molhado

e me apertando alcançou

a saudade que de mim sentia

- Autor: Malluh Praxedes – Livro: Suspiração

MARIA-PELEGO-PRETO

Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de pêlos no pente.

A gente pagava pra ver o fenômeno.

A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra cima do umbigo.

Era uma romaria chimite!

Na porta o pai entrevado recebendo as entradas…

Um senhor respeitável disse que aquilo era uma indignidade e um desrespeito às instituições da família e da Pátria!

Mas parece que era fome.

- Autor: Manoel de Barros – Livro: Poemas concebidos sem pecados

MEU FILHO COMIGO

Enquanto os quartos das crianças crescem,

os meus cantos diminuem.

O escritório cederá à soberania da sacada.

Não se terá um aposento para se ler concentrado.

As bolas estarão debaixo do sofá.

A cama será invadida por lâmpadas e sirenes.

A mesa acumula têmperas e riscos.

Minha casa é – progressivamente –

o porta-retrato dos filhos.

Autor: Fabrício Carpinejar – Livro: Meu filho, minha filha.

MINHA FILHA SEM MIM

Minha filha, não era feriado

Para zoológico. Frio, chuva e lama.

Os bichos apequenados pela neblina,

grudados no osso das celas.

estranharam nossa procissão

de guarda-chuvas. As galerias

intermináveis, as grades,

os baldes com a comida parada.

No meio do horror,

Um casal de babuínos se penteava.

O macho limpava a fêmea

com lentidão, generosidade.

Ela de costas, imóvel e confiante.

Ele puxava os fios grisalhos dela,

acalmava o pêlo de floresta.

As palmas brancas, quase avermelhadas,

iam repondo a pele feminina

como quem estende

a toalha de mesa na janela.

Não falei mais nada todo o dia,

por inveja dos animais.

Autor: Fabrício Carpinejar – Livro: Meu filho, minha filha.

PERCURSO

É chegar e partir

a jacto.

É suspirar e desistir

a vôo de pássaro.

Ainda ontem chegavas

entre nuvens de sonho

ao centro da plataforma.

Para o que és e não foste.

Agora partes

à míngua de força

para além dos arredores.

No breve percurso diário

dilacera-se o indócil

ser humano

pelo fato de estar

ombro a ombro

com o próximo.

Autor: Henriqueta Lisboa – Livro: Pousada do ser.

QUALQUER MÚSICA

09-10-1927

Qualquer música, ah, qualquer

Logo que me tire da alma

Esta incerteza que quer

Qualquer impossível calma!

Qualquer música – guitarra,

Viola, harmônio, realejo…

Um canto que se desgarra…

Um sonho em que nada vejo…

- Autor: Fernando Pessoa – Livro: Poemas escolhidos.

REINADO

Hoje é o grande dia

muito festejado.

Vamos receber

a coroa do rosário.

Entramos a capela

rodeada de gente.

Ouvimos os ternos

de Congo Moçambique.

Se Zambi nos tirasse

agora, tudo morria.

Ajoelhados

recebemos a coroa.

Vamos amparar ela

e receber o manto.

Do céu veio descendo

uma duas ternuras.

Está coroado o novo

estado, está coroado.

Nos levantamos rei

rainha do rosário.

Tantos vivem em nós

que não morremos.

Os santos de devoção

seguem mesmo navio.

Em nós a alegria, em

nós o compromisso.

Quem leva a coroa

não tira mais nunca.

Por mais que a morte

corte nossa cabeça.

Autor: Edmilson de Almeida Pereira – Livro: A roda do mundo.

SAUDOSA AMNÉSIA

a um amigo que perdeu a memória

Memória é coisa recente.

Até ontem, quem lembrava?

A coisa veio antes,

ou, antes, foi a palavra?

Ao perder a lembrança,

grande coisa não se perde.

Nuvens, são sempre brancas.

O mar? Continua verde.

Autor: Paulo Leminski.- Livro: Distraídos venceremos.

A vida não tem ensaio

mas tem novas chances

Viva a burilação eterna, a possibilidade:

o esmeril dos dissabores!

Abaixo o estéril arrependimento

a duração inútil dos rancores

Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:

a vida inédita pela frente

e a virgindade dos dias que virão!

Flor do Leblon, Rio, 18 de dezembro de 1997

- Autor: Elisa Lucinda. – Livro: Euteamo e suas estréias

ÚLTIMO AVISO

caso alguma coisa me acontecer,

informem a família,

foi assim, assim tinha que ser

tinha que ser dor e dor

esse processo de crescer

tinha que vir dobrado

esse medo de não ser

tinha que ser mistério

esse meu modo de desaparecer

um poema, por exemplo,

caso alguma coisa me suceder,

vá que seja um indício

quem sabe ainda não acabei de escrever

Autor: Paulo Leminski.- Livro: Distraídos venceremos.

Leilão de Jardim

Quem me compra um jardim com flores?

borboletas de muitas cores,

lavadeiras e passarinhos,

ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?

Quem me compra um raio

de sol?

Um lagarto entre o muro e a hera,

uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?

E este sapo, que é jardineiro?

E a cigarra e a sua

canção?

E o grilinho dentro

do chão?

(Este é meu leilão!)

Autor: Cecília Meireles. – Livro: Os melhores poemas.

CIRANDA

.

Eu queria ser a rosa

lá-lá-rá-lá-lá-lá-lá,

E, vivendo num jardim,

.

Ter besouros, borboletas,

lá-lá-rá-lá-lá-lá-lá,

Cirandando ao pé de mim ! …

.

Eu queria ser a praia,

Ló-ló-ró-ló-ló-ló-ló.

Onde as ondas vão brincar;

.

E seria toda a vida,

Ló-ló-ró-ló-ló-ló-ló.

Bem querida pelo mar !

.

Eu queria ser estrela,

Li-li-ri-li-li-li-li,

sendo a noite minha irmã,

.

Para despontar à tarde,

Li-li-ri-li-li-li-li,

E esconder-me de manhã ! …

- Autor: Cecília Meireles. – Livro: Criança, meu amor.

CLASSIFICADOS POÉTICOS

Procura-se algum lugar no planeta

Onde a vida seja sempre uma festa

Onde o homem não mate

Nem bicho nem homem

E deixe em paz

As árvores na floresta.

Procura-se algum lugar no planeta

Onde a vida seja sempre uma dança

E mesmo as pessoas mais graves

Tenham no rosto um olhar de criança.

Classificados Poéticos – Roseana Murray

Troco um fusca branco

Por um cavalo cor de vento

Um cavalo mais veloz que o pensamento.

Quero que ele me leve pra bem longe

E que galope ao deus-dará

Que me cansei deste engarrafamento…

Ainda dos Classificados Poéticos de Roseana Murray

Menino que mora num planeta azul feito a cauda de um cometa

Quer se corresponder com alguém de outra galáxia

Neste planeta onde o menino mora

As coisas não vão tão bem assim:

O azul está ficando desbotado

E os homens brincam de guerra

É só apertar um botão

Que o planeta Terra vai pelos ares…

Então o menino procura com urgência

alguém de outra galáxia

para trocarem selos, figurinhas

e esperanças.

Habitante de outra galáxia

Aceita corresponder-se com o menino

Do planeta azul.

O mundo deste habitante é todo

feito de vento e cheira a jasmim.

Não há fome nem há guerra

E, nas tardes perfumadas

As pessoas passeiam de mãos dadas

E costumam rir à toa.

Nesta galáxia ninguém faz a morte,

Ela acontece naturalmente

Como o sono depois da festa.

Os habitantes não mentem

E por isso os seus olhos

Brilham como riachos.

O habitante da outra galáxia

Aceita trocar selos e figurinhas

E pede ao menino

Que encha os bolsos de esperanças,

E não só os bolsos, mas também as mãos

E os cabelos, a voz, o coração

Que a doença do planeta azul

Ainda tem solução.

- Autor: Roseana Murray. – Livro: Classificados poéticos

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta

Irmão das coisas fugidias,

Não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

No vento

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

Ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

- Autor: Cecília Meireles. – Livro: Os melhores Poemas

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol

Ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

Ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

E vivo escolhendo o dia inteiro

Não sei se brinco, não sei se estudo,

Se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

Qual é melhor: se isto ou aquilo.

- Autor: Cecília Meireles. – Livro: Ou isto ou aquilo e inéditas.

Publicado em: on 6 06UTC Dezembro 06UTC 2010 at 10:57  Deixe um Comentário  

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